Os Olhos Curados às Portas de Nínive e o Segredo do Companheiro de Viagem
Durante semanas a mãe Ana vigia em lágrimas a encruzilhada poeirenta fora de Nínive até que o cãozinho da casa dispara à frente rodeando seus pés — anunciando a hora em que o fel do peixe do Tigre descola a cegueira de Tobit e o guia revela suas asas celestes.
RAFAEL REVELA ASAS
Todas as manhãs desde que o prazo combinado expirara, Ana largava o tear e ia postar-se na encruzilhada poeirenta que apontava para as montanhas orientais fora de Nínive. O sol ardente da Mesopotâmia fazia arder seus olhos cansados de tanto esquadrinhar o horizonte vazio. Os quatorze dias inesperados de festa nupcial em Ecbátana, desconhecidos pelos pais, haviam transformado cada entardecer numa tortura silenciosa. Ana desabafava chorando: “Ai de mim, meu filho, luz dos meus olhos, por que te deixamos partir para tão longe? Certamente ele já morreu!”. Dentro de casa, o velho Tobit cego tentava acalmá-la garantindo que o guia era digno de confiança, mas os próprios dedos do ancião apertavam o bastão em silêncio contando cada passo que ouvia na rua.
Naquela tarde, enquanto a caravana com a noiva Sara, os servos e o rebanho avançava devagar mais atrás, Azarias propôs a Tobias que os dois seguissem adiante a passo rápido até Nínive para preparar a casa e curar logo o velho pai. Antes de avistarem os muros da cidade, o companheiro deu-lhe a instrução exata: “Leva já na palma da mão o fel do peixe do rio Tigre. Assim que teu pai vier abraçar-te, unge-lhe os olhos sem medo; eles vão arder e ele os esfregará, mas as manchas brancas se soltarão e ele voltará a ver-te!”.
O Cãozinho Fiel Correndo à Frente e o Fel Amargo que Restitui a Visão ao Pai
De repente, no alto da encosta avermelhada, um pequeno vulto disparou à frente dos dois viajantes. O cãozinho da família — fiel companheiro silencioso que trotara quase dois mil quilômetros de ida e volta pelas serras frias da Média — farejou o cheiro familiar da aldeia e correu a toda velocidade até a mãe parada à beira da estrada! Saltava e abanava a cauda ao redor da barra do vestido de Ana como um arauto festivo anunciando a vida antes de qualquer palavra humana. Ana baixou os olhos espantada para o animalzinho coberto de poeira e, ao erguer o rosto, viu o filho correndo em sua direção.
Ela precipitou-se pela estrada e lançou-se ao pescoço de Tobias banhada em lágrimas: “Agora que voltei a ver-te, meu filho, já posso morrer em paz!”. O grito de júbilo no portão fez o velho Tobit levantar-se num salto do banco do pátio. Esquecido da própria escuridão de quatro anos, o pai correu às cegas rumo à porta e tropeçou na pedra da soleira, quase caindo de rosto no chão. Tobias saltou adiante e amparou o pai idoso nos próprios braços.
Ali mesmo sob a luz dourada da porta, antes de mencionar prata ou casamento, Tobias abriu o pequeno invólucro de pano, soprou suavemente sobre as pupilas veladas do pai e aplicou o fel amargo do peixe do Tigre sobre suas pálpebras. “Tem bom ânimo, meu pai!” Durante alguns minutos tensos o líquido queimou vivamente as córneas cobertas pela névoa antiga. Tobit levou as duas mãos aos olhos para esfregá-los. E então aconteceu o prodígio: a partir dos cantos internos dos olhos enrugados, a membrana branca e espessa que trancara seu mundo durante quatro anos destacou-se inteira como uma película seca!
A Luz do Sol de Nínive Após Quatro Anos de Trevas e a Chegada Feliz da Nora
O ancião piscou atônito. Primeiro veio um clarão dourado e ofuscante do sol de Nínive após mil e quatrocentas noites ininterruptas. Logo os contornos ganharam nitidez: os ombros fortes que o seguravam, o rosto viril e banhado em pranto do filho Tobias, e os cabelos brancos da fiel esposa Ana chorando de mãos postas ao lado! Tobit apertou o filho contra o peito bendizendo em voz alta o Deus vivo que o provara na tribulação e agora se compadecia dele, devolvendo-lhe a visão do único filho antes da morte.
Sete dias depois chegaram às portas de Nínive os jumentos e camelos trazendo Sara, o dote generoso de Raguel e os dez talentos completos de prata vindos de Ragés. Os israelitas deportados da vizinhança olhavam maravilhados aquele velho que até a semana anterior precisava ser guiado pela mão caminhar agora firme e radiante até a entrada da cidade para acolher a nora libertada de sete tragédias. Uma segunda festa nupcial de alegria transbordante encheu de cânticos o mesmo pátio onde anos atrás haviam ecoado lágrimas de penúria.
Encerrados os dias de festa, Tobit chamou o filho em particular para calcular a recompensa devida ao guia Azarias. Pagar-lhe apenas uma dracma por dia parecia agora uma ingratidão impensável diante de tantos prodígios. Tobias disse ao pai: “Meu pai, ele me levou e me trouxe são e salvo, recuperou ele mesmo o dinheiro com Gabael, deu-me Sara por esposa libertando-a do demônio e restituiu a luz aos teus olhos — mesmo que lhe dermos metade de tudo o que trouxemos, não será demais!”. De comum acordo, chamaram Azarias à parte e suplicaram que aceitasse cinco talentos de prata e metade dos bens trazidos como pagamento fraterno.
“Eu Sou o Anjo Rafael, Um dos Sete Diante do Senhor” — A Memória Viva do Céu
O viajante sorriu com serenidade luminosa, mas não estendeu a mão para tocar em moeda alguma. Chamou apenas pai e filho para um aposento reservado, fechou a porta e, pela primeira vez em toda a caminhada, sua voz assumiu uma majestade celeste que fez tremer o coração dos dois homens. Exortou-os a bendizerem a Deus diante de todos os viventes, revelando o valor imenso da oração unida ao jejum e à esmola — pois a esmola livra da morte e purifica de todo pecado — e então abriu diante deles o livro invisível da memória do céu.
“Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua refeição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia para sepultá-los quando viesse a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor! E porque eras agradável a Deus, foi preciso que a provação te experimentasse. Agora o Senhor enviou-me para curar-te e livrar do mal a Sara, esposa do teu filho. Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos sempre na presença gloriosa do Senhor!”
Por Que o Livro de Tobias na Bíblia Católica É Remédio Para as Famílias Hoje
Tobit e Tobias caíram imediatamente de rosto em terra, tomados de temor sagrado. Aquela noite longínqua de Pentecostes em que o velho abandonara o prato quente para recolher um cadáver na rua, julgando-se sozinho num império hostil antes de perder a visão sob um muro sujo, tivera o tempo todo um Arcanjo do trono de Deus de pé ao seu lado recolhendo cada gota de suor caridoso num turíbulo de ouro! E durante meses inteiros caminhando na poeira às margens do Tigre pelo jornal modesto de um trabalhador braçal, aquele jovem discreto não comera alimento mortal algum — tudo o que viam fora condescendência amorosa do céu caminhando passo a passo com a fragilidade humana. Quando pai e filho ousaram erguer a fronte após ouvirem “Não temais; a paz esteja convosco!”, o quarto estava vazio: Aquele cujo nome é Deus Cura já subira de volta à luz inacessível.
Eis por que a Igreja Católica guarda há dois milênios o Livro de Tobias dentro da Bíblia de setenta e três livros como um tesouro insubstituível. Ele fala diretamente às duas dores mais profundas dos lares de hoje: a enfermidade prolongada que tenta desanimar quem faz o bem e o matrimônio ferido pelo medo. Tobias garante a você esta noite que nenhum prato repartido com quem sofre, nenhuma madrugada em claro cuidando de um doente da família e nenhuma oração sussurrada de mãos dadas à beira da cama ficou esquecida — porque bem ao seu lado um santo anjo de Deus continua levando cada lágrima até o trono do Altíssimo, aguardando a hora exata de fazer cair todas as escamas dos seus olhos.
“Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua refeição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia, para sepultá-los quando viesse a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor. Mas porque eras agradável ao Senhor, foi preciso que a tentação te provasse. Agora o Senhor enviou-me para curar-te e livrar do demônio Sara, mulher de teu filho. Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor”.”— Livro de Tobias 12:12-15
Glorioso Arcanjo São Rafael, um dos sete espíritos puros que assistem diante da majestade do Senhor e guia fidelíssimo da família de Tobit, bendizemos a Deus por vos ter enviado como medicina celeste para os cegos, os enfermos e os casais em provação. Tocai hoje com o bálsamo da graça divina os olhos da nossa alma e do nosso corpo, fazendo cair toda escama de dúvida, cansaço espiritual ou enfermidade. Continuai apresentando diante do trono de Deus as nossas pequenas esmolas escondidas, as vigílias silenciosas ao lado de quem sofre e as súplicas da nossa casa, até o dia em que chegarmos sãos e salvos à pátria eterna. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Perguntas Frequentes Bíblicas e Históricas
Quem são os “sete anjos que assistem na presença do Senhor” mencionados em Tobias 12,15?
Por que São Rafael diz que foi preciso a tentação provar Tobit justamente porque ele agradava a Deus?
Qual o ensinamento de São Rafael sobre oração, jejum e esmola antes de subir ao céu?
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