VIAGEM SEM VOLTA
São Damião na Ilha da Morte de Molokai: A Manhã em Que o Padre Disse “Nós, os Leprosos”
Crônica histórica em três capítulos sobre o desembarque nas falésias de Kalaupapa em 1873, dezesseis anos construindo ataúdes e capelas com as mãos nuas e o sermão dominical que uniu para sempre o pastor ao seu rebanho
Em 10 de maio de 1873, o sacerdote belga de trinta e três anos Jozef De Veuster — Padre Damião dos Sagrados Corações — saltou sobre as rochas vulcânicas da península de Kalaupapa, na ilha havaiana de Molokai, onde centenas de hansenianos eram lançados à própria sorte sem médicos, abrigo ou lei. Durante dezesseis anos, ele guardou as luvas de linho no bolso da batina para limpar feridas abertas com as mãos desprotegidas, erguer igrejas de madeira e cavar sepulturas — até a noite de 1884 em que mergulhou os pés numa bacia de água fervente e percebeu que já não sentia dor alguma.